SCRAPBOOK
Ella canta o songbook dos Gershwins e eu sinto pena de mim mesma. Não, gosto de ter dó de mim. By the way, dó continua sendo substantivo masculino, não? Ou já foi aceito como feminino? Eu acho “uma dó” tão feio! Bem, sinto pena de mim. A internet não conecta direito. Ninguém quer saber do meu talento, apenas de meus contatos. Duvido de meus talentos. Me sinto uma total fraude. Solidão, paixão, transferência e stalking. Este é o tema do dia. 1 – O cara trabalha como segurança. Passa o dia naquelas salas com monitores. Funcionário terceirizado, prestando serviço em uma grande empresa – sei lá por que, mas imagino o Itaú do metrô conceição. Começa a prestar atenção a uma garota. Ela não é particularmente bonita ou charmosa ou gostosa, mas por um daqueles acasos, ele gosta de segui-la. Primeiro, se contenta em observar a garota chegando, indo e voltando do almoço e indo embora, depois começa a seguir seus passos pelas várias câmeras. Ela desaparece. Ele abandona sua sala e descobre, através de uma amiga dela, que ela foi transferida de setor. Ele consegue localizar a garota e continua stalking. Consegue acesso aos dados do rh e descobre o endereço da garota. Tenta falar com ela, mas ela se assusta. Tenta de novo e é denunciado. Perde o emprego. Consegue dinheiro emprestado, compra aliança e vai atrás da garota. É desprezado e se desespera. Tenta sequestrar a garota, mas dá tudo errado e ele acaba matando a menina. Congela o corpo em um frigorífero abandonado, mas não consegue viver com a culpa. 2 – Mulher tem dificuldade de se comunicar com o mundo. Trabalha como tradutora, em casa, só fala com as pessoas via emails. Após traduzir um filme romântico envolvendo um policial, conclui que o grande amor da sua vida é da polícia. Começa a inventar ocorrências e ligar para a delegacia local pedindo uma viatura. Após mais de dez ocorrências-fraude, a polícia vai a casa dela e confisca seu celular. Mulher vira a mulher da história 1? Como a gente preenche o vazio? Como a gente descobre o que quer? Como a gente vive? E por que a gente não desiste? Por que todo esse apego à consciência? Por que a esperança supera? E que esperança é essa? O que eu estou esperando? Era tão bom ser criança e esperar a páscoa, esperar o natal, esperar o aniversário, esperar o fim de semana, esperar o horário do programa preferido na tv. Eu não sei o que estou esperando. Invento eventos e, quando eles chegam, descubro que nem queria. Eu espero você chegar. Você chega e eu não sei o que fazer. E essa falta de vontade? Isso é químico? É físico? Vem do ar ou de conexões defeituosas no meu cérebro? Tudo o que achava que era certo mostrou-se pouco, ou até mesmo errado. Eu passei a vida acumulando informações. São quarenta anos de informações... E eu ainda não descobri o que fazer com tudo isso. Disciplina – zero. A verdade é que eu nunca precisei me esforçar pra fazer nada. A verdade é que eu levo a vida na flauta. A verdade é que eu espero o mundo acabar em barranco pra morrer encostada. A verdade é que não sinto vergonha de nada disso. A verdade é que ainda acho que o mundo gira ao meu redor. A verdade é que minha culpa é um sintoma do meu egocentrismo. A verdade é que a única coisa que desprezo em mim é minha incapacidade de fazer o mundo aceitar a minha genialidade. Hahahaha Na roça não tem rivotril. Aqui em casa tem rivotril, lexotan, paroxetina, anafranil, lorax, frontal... Nada me acalma. Vou bater um bolo. Assar o bolo. Fazer recheio e cobertura. Escrever seu nome em cima do bolo. E espero que você coma o bolo porque eu não gosto de bolo. E se eu correr? E se eu sair correndo e só para quando desmaiar? Será que eu paro de pensar? E se eu achar um emprego besta e burocrático? Alguma repartição pública pra bater carimbo. Acho que é muito fácil e eu vou continuar pensando. Talvez se eu tiver que bater carimbos em ordem alfabética e diferenciando direita e esquerda fique mais complicado pra mim e eu pare de pensar. Acho que é a história da minha vida: procurar maneiras de parar de pensar. Desde a escolinha, não? Eu batia nas outras crianças pra parar de pensar. Eu brigava com as professoras pra parar de pensar. Eu esperava o namorado, na porta de casa, com o estilete na mão, pra parar de pensar. Eu tomo remédio pra parar de pensar. E eu continuo pensando. E os pensamentos são rasos e confusos. Eu não sei o que eu quero. Nunca soube. E acho que nunca vou saber. Eu sinto muito. Eu acho que sinto muito, mas eu não sei. Vou reestartar o pc pela décima vez pra ver se consigo me conectar. Me conectar e ler fofocas, ver colunas sociais, ler blogs inteligentes e imbecis. Ocupar minha cabeça com qualquer coisa que não seja sentir pena de mim.
Escrito por kelly às 03h41 PM
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